Introdução

Mãe de 3 filhos (Rodrigo, Philippe e Fernanda), avó (quatro netas: Eduarda, Mirela, Luna e Laura), Supervisora Educacional, Profª aposentada de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira; Pedagoga e Pesquisadora, Graduada em Letras e Pedagogia e Pós-Graduada (Especialista em Língua Portuguesa e Iniciação Teológica); Mestre em Letras e Ciências Humanas. Trabalho muito, estudo bastante, adoro pesquisar, ler boas obras; folhear jornais e revistas, assistir telejornais; viajar, ir ao Shopping, utilizar a Internet. Crio algumas "quadrinhas", gosto de elaborar projetos que não sejam engavetados.

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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O que entra na escola deve ser avaliado

* Sempre um aprendizado novo ler Roxane Rojo, mesmo que tenha passado algum tempo... Há, na fala da Professora Roxane, algo que sempre soa como "previsão", como "alerta"... Falta boa vontade de quem de direito deveria entender. Mas, sabe qual é o problema? Geralmente quem ocupa altos escalões não entende nada de Educação. Ou se entende, finge não perceber certas coisas...


Para melhor leitura o texto pode ser encontrado em:


http://revistaescolapublica.uol.com.br/materia.asp?edicao=8&id_materia=35

Linguista e especialista em avaliação defende que MEC avalie e entenda o porquê da demanda de municípios por material apostilado
Rubem Barros
Gustavo Morita




"Demorou." Com essa introdução alinhada ao universo linguístico dos jovens, a professora Roxane Rojo, diretora do Instituto de Estudos 
da Linguagem e professora de Linguística
Aplicada da Universidade Estadual de 
Campinas (Unicamp), começou sua 
resposta sobre a pertinência de se avaliar 
os materiais apostilados, ou estruturados, 
como são chamados os materiais feitos 
por entidades privadas e vendidos a 
diversas redes públicas de ensino.

Partindo do pressuposto de que esses 
materiais já estão, de fato, nas escolas, 
e que o contribuinte paga por eles, 
a especialista em gêneros discursivos e 
avaliação de livros didáticos defende 
que eles, assim como todos os fatores
 que concorrem para a qualidade da educação, sejam objeto de análise por
 parte do Ministério da Educação. E que os municípios possam decidir qual material
 utilizar. 

Leia, a seguir, a entrevista concedida ao editor Rubem Barros pela ex-consultora
do MEC em avaliação de livros didáticos de língua portuguesa.

Começam a surgir demandas para se avaliar os materiais apostilados ou estruturados, editados pelos sistemas privados de educação. Qual sua opinião a respeito? 

Demorou. O Ministério da Educação faz avaliação muito em caráter de controle de qualidade de produto mercadológico que ele compra e distribui, e menos no caráter de sua vocação, que é supervisionar, induzir as questões pedagógica, didática, educacional no Brasil. Nesse sentido, acho que deveria responsabilizar--se por avaliar - não sei se no sentido restritivo, como é feito com os livros, na medida em que não compra e distribui os apostilados- mas deveria supervisionar e levar em conta tudo aquilo que entra na escola: professor, aluno, livro, material etc.

Não caberia o caráter seletivo? 

O problema dos apostilados é que quem compra e distribui são as prefeituras - e aí há um problema de política pública bem grave, que deveria levar a uma discussão aprofundada. Por outro lado, o governo do Estado de São Paulo, na gestão da ex-secretária Maria Helena Guimarães de Castro [que deixou o cargo no final de março], também distribuiu material próprio, primeiro por meio de um jornalzinho e depois pelos cadernos do aluno e do professor. E o Ministério distribui o livro. Então, são três gastos públicos com a mesma finalidade, saídos do nosso imposto de renda. Segundo lugar, uma coisa é avaliada e as outras, não. Pode-se dizer que o material das secretarias é avaliado por elas próprias, mas vimos o que aconteceu agora com os dois Paraguai e nenhum Uruguai [erro constatado no material impresso pelo governo paulista]. Então, está virando terra de ninguém. Estão começando agora a falar em avaliar, mas já deveriam ter acabado de analisar.

Faz sentido para você que as redes escolham a que ter acesso (livros, apostilados etc.) e o MEC banque o acesso de acordo com essa escolha?

Sim. O discurso que cercou a distribuição dos cadernos do professor, do aluno e do jornalzinho é que não era um material que concorria com o livro didático, era suplementar. Mas com a quantidade de aulas que o professor tem, com o tempo de aula que o menino tem, não dá para seguir um programa próprio baseado no didático e ao mesmo tempo dar tudo que está no caderno para fazer a provinha dali a dois meses. Os sistemas [públicos] tinham de receber o dinheiro do Ministério e escolher o que receber. Mas não acho que basta avaliar. Tem de se discutir política pública: por que os municípios estão apresentando demanda de material apostilado desse tipo. Os materiais são diferentes entre si, tenho algumas pesquisas analisando apostilados por causa desse motivo [a disparidade]. Há alguns muito interessantes, que os alunos chamam de "dificísculos", em vez de fascículos, porque puxam para cima, e outros que se adaptam ao padrão tradicional de ensino, trazem duas coisinhas de gramática, textos pequenininhos. Então, é preciso avaliar e saber o porquê da demanda. Acho que é um dado solidário ao fato de que os professores, pelo menos na minha área (língua portuguesa), escolhem os livros que o MEC recomenda com ressalvas.

A que se deve esse fato? 

Fizemos uma pesquisa em 2000, 2001, com amostragem nacional, perguntando por quê. A constatação é que há um descompasso grande entre a avaliação do Ministério - que é de base pedagógica, mas sobretudo acadêmica - e a demanda do professor. Vários elementos incidem aí, como a formação docente (o uso e a escolha do material não são objetos de formação). Eles, por sua vez, dizem que o material que os avaliadores julgam ser bom é difícil para o aluno. Outro problema é a logística, pois muitos livros considerados bons propõem coisas demais dentro do que a escola pode fazer com aulas de 50 minutos, com classes superlotadas, sem equipamento e sem acesso à biblioteca. Então, é preciso discutir o que essa demanda está representando, se não é um pleito por um material mais adequado à realidade dos professores, num sentido amplo, e o que se pode fazer em termos de formação desses docentes e mudança das realidades locais.

Gestores e professores de escola pública reclamam que a academia tem uma visão um pouco fora da realidade sobre a escola. Que tipo de escola a academia constrói?

Talvez uma escola ideal, não num sentido dos melhores mundos possíveis, mas no sentido que existe nas escolas privadas: número menor de alunos por sala, uma aula maior, de mais tempo, em que se podem combinar dobradinhas, professores mais atualizados, que contam com auxiliar na sala, bibliotecas, salas de vídeo e de laboratório de informática funcionando.

Ou seja, questões de infraestrutura física e humana. 

É, do funcionamento e do salário do professor, por exemplo. Quando digo que não é irreal é porque a escola pública tem condições de ser assim. O Estado de São Paulo está todo equipado. Falta alguém que abra a sala, que entenda do equipamento, o bibliotecário. Falta material humano. É claro que há escolas públicas que cumprem esse papel. E o Ideb talvez até meça um pouco isso agora. Na medida em que pensamos em políticas de indução, acho que temos mesmo de pensar na escola viável. Depende também um pouco desse material humano topar fazer as mudanças necessárias para que isso aconteça.

Mas tudo isso não é resultado também de uma municipalização apressada, que fez com que os pequenos municípios ficassem órfãos em termos de formação? 

Um pequeno município talvez tenha mais dificuldade, talvez não. Já participei de algumas formações feitas por ONGs ou microempresas chamadas por pequenos municípios. Eles têm condição. Tem a verba para isso, o Fundef, agora o Fundeb, para fazer isso. Eu não sei avaliar o quanto se deveria isso ao município, à condição da rede e o quanto se deve a outros mecanismos mais perversos até. O que vejo acontecer é aparecer no portal de internet da rede que adota o apostilado, por exemplo, uma chamada dizendo que "esta rede de ensino está igual às privadas porque adota o material do sistema x". Pode ser uma questão de marketing da própria prefeitura, pode ser uma maneira de controle dos professores, porque esses sistemas controlam, assim como a secretaria estadual de São Paulo está fazendo agora, porque tem de finalizar a apostila do bimestre para entrar outra e comprar mais uma.

O que a senhora pensa sobre a questão da unificação curricular?

O que foi unificado a partir do governo Fernando Henrique são os parâmetros e diretrizes. O PCN era proposto virtualmente como algo que a rede e a escola, o projeto pedagógico da escola deveria configurar, portanto não como uma lei propriamente, mas como uma referência. Só que, paralelamente, o que o ministro Paulo Renato fez, e o governo Lula perpetuou com modificações, foi um sistema de avaliação inexistente até então - avaliações dos alunos, livros, escola (com o Ideb) - que dá parâmetros. O que está parametrizando a escola hoje - a pública e a privada também em algum grau - são os descritores de avaliação dos exames (Enem, Saeb, Prova Brasil, Provinha Brasil, Saresp). E agora a discussão está se deslocando para os vestibulares, se teremos Enem, vestibular unificado, ou mudança nos vestibulares das públicas. É isso que está construindo o currículo. Bem ou mal, de maneira um pouco esquizofrênica, porque se pega descritor daqui, outro dali, um livro que se adequa mais ou menos, um material que não se adequa. É muita confusão na cabeça do professor.

E esse é um caminho bom para se definir um currículo?

Não sei. O governo Lula considerou a possibilidade e depois desistiu, de rever os parâmetros, que já têm mais de 10 anos. No médio até houve uma orientação nova, mas insuficiente. Mas sobretudo no fundamental, no sentido de incorporar uma grade curricular, que é algo que fecha mais do que aquilo que está parametrizado. Também o Estado de São Paulo fez isso com essa última proposta. O material compõe, bem ou mal, uma grade. Outras secretarias e propostas curriculares também estão fazendo isso. Essa abertura do parâmetro que a escola deveria fazer [por meio do projeto político-pedagógico], teria de ter infraestrutura material e humana, além de tempo físico para os professores se reunirem e construírem efetivamente um projeto de escola. Isso é raridade. A privada é mais difícil de avaliar, porque os índices não a incluem de forma obrigatória, é difícil saber como ela vai. Mas não acredito na hipótese de que ela seja muito superior em qualidade, a não ser algumas raras exceções.

Nas avaliações, tratamos basicamente de língua portuguesa e matemática. Não corremos o risco de focar muito essas questões e deixar outras áreas, como ciências, história e artes, para trás?

Concordo em gênero, número e grau. Há algo que está posto no horizonte e provavelmente vai acontecer na próxima gestão [federal] - e vamos ver o que o novo secretário fará em São Paulo - que é uma revisão das propostas. As propostas curriculares e as avaliações estão colocando em jogo um dilema, porque a maior parte das primeiras apontam para um universo que na minha opinião é muito mais adequado, que é o da interdisciplinaridade, o ensino por áreas e não por disciplinas. Ou seja, agregar ciências - física, química, biologia, matemática - num bloco de reflexão em torno de objetos concretos da vida, que seria muito interessante para os alunos e resolveria muito da resistência ao ensino que ocorre na escola hoje.

Isso no ensino médio, ou já no fundamental? 

Em princípio no médio, mas houve toda uma discussão no Ministério em torno de uma proposta de um professor de Minas Gerais, cuja ideia era rever os PCNs do ensino fundamental também nessa direção. É um caminho importante a ser trilhado. É uma proposta que foi muito mal elaborada nos PCNEMs, muito criticada pelo fato de se julgar que a escola não tem condições de fazer isso, mas é a proposta mais necessária. Então, o fato de as avaliações, além de serem disciplinares, priorizarem duas disciplinas isoladamente é catastrófico. Os vestibulares de ponta vão em que direção? Nessa em que entram propostas mais complexas, em que entram textos, conhecimentos históricos, tudo junto, para elaborar uma seleção para o ensino superior. A universidade quer alunos que sejam capazes disso, de relacionar informações, de transitar, ler e escrever entre diversas áreas. Se é isso que está proposto para a elite, para aquele que vai se profissionalizar, fazer parte da cidadania, é o que tem de ser proposto para a Educação Básica.

Parte-se do pressuposto de que o aluno não sabe e que se deve avaliar a capacidade mais básica. Com isso, a escola não tolhe oportunidades para aqueles alunos que têm capacidades mais elevadas?

E mesmo para os que não têm. Se você cria uma galinha e dá ração misturada com farinha, ela vai ter pouca proteína do mesmo jeito, seja a galinha forte ou a fraca. É preciso sofisticar um pouco mais. Esse é o problema desses materiais que foram propostos pela secretaria de São Paulo, pelo menos do jornalzinho. Eles iam pelo mínimo. Depois, nos cadernos, eles melhoraram. Mas, por exemplo, como texto para o 1º ano do ensino médio propuseram fábulas e fizeram perguntas de 3º ano do fundamental. Se a escola propusesse coisas mais interessantes, os alunos não estariam resistindo tanto.

Mas a formação dos professores é disciplinar. Não é preciso mudá-la primeiro? 

Ou implantar para daí mudar a formação, que é o que acontece normalmente, a indução é às avessas. Os vestibulares estão discutindo isso agora. A Fuvest, a Unesp e o vestibular paulista das públicas. A proposta é reorganizar os vestibulares pelas áreas propostas no PCNEM. Se o vestibular fizer isso, a escola vai ser constrangida a pensar sua reorganização de forma interdisciplinar.

Não deveria haver um período de transição? 

A universidade sempre é a última a fazer mudanças. Mas acho que há um discurso mais ideológico do que efetivo. É preciso ver a prova que vão elaborar. As questões que eles vão fazer não devem ser tão diferentes assim das que estão postas pelo Enem ou pelos vestibulares de outras universidades, talvez num nível um pouco mais elaborado.



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