Introdução

Mãe de 3 filhos (Rodrigo, Philippe e Fernanda), avó (quatro netas: Eduarda, Mirela, Luna e Laura), Supervisora Educacional, Profª aposentada de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira; Pedagoga e Pesquisadora, Graduada em Letras e Pedagogia e Pós-Graduada (Especialista em Língua Portuguesa e Iniciação Teológica); Mestre em Letras e Ciências Humanas. Trabalho muito, estudo bastante, adoro pesquisar, ler boas obras; folhear jornais e revistas, assistir telejornais; viajar, ir ao Shopping, utilizar a Internet. Crio algumas "quadrinhas", gosto de elaborar projetos que não sejam engavetados.

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terça-feira, 28 de junho de 2016

Publicação de um amigo, António Corvo, no Facebook. "Compartilho",

Desculpem, preciso falar da morte de médica aqui no Rio de Janeiro, na Linha Vermelha, na madrugada de sábado para domingo. Mais uma vez a morte desnecessária de uma cidadã. Mais uma vez uma família destruída. Não foi a primeira, não será a última vez, assim como não é a primeira nem será a última vez que se escreve que não será a primeira nem a última vez em que a vida de alguém é tirada por nada, por banalidade, por costume, por hábito.
Não quero falar de política, de quem defende bandido, da economia, do mundo caótico em que vivemos, nessa barbárie que colorimos todo dia com o verde dos gramados e outras cores fortes da palheta da mídia, que exibe merda em tons variados de marrom.
Já não se trata mais de falar disso.
Se trata de estar profundamente cansado da vida. Eu não conhecia a moça, mas senti a dor da família. Já senti outras dores alheias, mas essa foi a gota d'água pra mim. Não se trata mais de dizer que o Rio de Janeiro é uma selva, que o Brasil é um lixo social, que o mundo é (e sempre foi) um lodaçal. Agora se trata só de estar cansado. Nunca tornei a merda palatável. Posso ter sido infinitamente menos feliz por conta disso, mas fui honesto comigo mesmo, vi o mundo como ele é, e ainda vejo.
Agora se trata apenas de desistir. Não falo da desistência de agir, da desistência de fazer o que importa, de fazer o certo, de desistir de estar do lado do que não é ruim, falo da desistência de sentir, talvez da desistência de viver em sociedade, ou no que parece ser sociedade, esse esforço surreal de transformar bestialidade em convivência.
Não sei nem se há para onde ir. Se não passo pela linha vermelha, posso ser fuzilado em cinemas na Alemanha, ser vítima de xenofobia na Inglaterra, de ser assassinado por grupos terroristas em Paris ou em qualquer lugar dos EUA. Não sei realmente se há para onde ir. Não sei sequer se quero ir.
Dividir o espaço com outros seres humanos, para mim, já excedeu todos os meus limites de tolerância, paciência, paz e sanidade.
O que nós estamos fazendo? Por que estamos permitindo tudo isso? Por que não estamos fazendo nada?
Não sei quando escreverei de novo, pode ser amanhã, pode ser daqui a anos... Nunca escrevi pra ser publicado, até porque sei que só serei publicado se for vendável, se estiver na mídia, se me tornar dinheiro nas mãos de editoras. Ainda assim, seria bom ser publicado. Não pela fama, porque não tenho jogo de cintura político, não babo ovo de apresentador de TV, acho o cenário cultural brasileiro uma merda (pelo menos o oficial) e sou um cínico niilista. Não tenho as condições necessárias para ser famoso. Publicaria para viver de literatura, como um trabalho qualquer. Mas viver de literatura, no Brasil, sendo um cínico estúpido que vive dizendo que o rei está nu? Melhor seria se eu fosse o rei nu, daria mais ibope e pelo menos garantia alguns milhões durante os minutos de fama.
Não sei se valeria a pena viver de poesia com inocentes sendo mortos a todo instante na minha cidade, no meu estado, no meu país, no meu planeta. Para tudo há um limite, até para a poesia, para a musa. Não posso mais ignorar esse tipo de coisa. Acho que não podermos mais ignorar esse tipo de coisa. Podia ser qualquer um de nós. De certa forma, fomos todos as vítimas. Sempre somos todos nós as vítimas quando morre um inocente.
Estou realmente bastante cansado. Apesar de ver pontos de luz no breu em que vivemos, ainda vivemos no breu, e alguns se exaurem mais rápidos que outros, e eu estou exausto. Como eu disse, exausto de sentir, não de fazer. Farei até o fim as pequenas coisas, essas que todos nós fazemos no dia a dia que fazem a vida menos escura. Mas hoje, tendo visto as imagens do enterro da moça, eu quebrei, eu desisti. Talvez o seu marido resista e faça desse episódio uma cruzada que mude o mundo! E se assim for, terá o meu apoio como for possível. Ainda assim, nada apagará o fato de ele ter enterrado sua esposa, morta da forma mais estúpida possível.
Penso se só eu estou cansado, penso se isso chega a ser um acovardar-se, um fugir da luta, ou se é efetivamente desistir de socar a ponta de uma faca.
Confesso, abismado e perdido, que não consigo, e estou sendo totalmente honesto comigo mesmo (porque isso não interessa a ninguém ler), compreender como é possível que a morte dessa jovem, e de outras tantas pessoas, da bala perdida ao latrocínio nosso de cada dia, conviva com Jogos Olímpicos, com competições de artistas na televisão, com passeios de domingo, com as preocupações com as contas de luz, com quem está presidindo a porra do país sem lei em que vivemos. Não consigo conceber como essa morte perde para a rotina, para o circo, para o vazio dos símbolos que costuram o que chamamos de sociedade.
Por que não paramos tudo para mudarmos tudo? Precisamos mesmo fechar aquele contrato amanhã? Precisamos mesmo comprar aquela lata de óleo no mercado? O que estamos fazendo com a morte, com a vida, nossa e dos outros?
Os mais otimistas dirão que a poesia torna mais leve os pesos da vida e da morte. Hoje a vida e a morte tornaram mais pesada a leveza da poesia.
Estou profundamente cansado e não sei o que fazer, ou se quero fazer, ou se vale a pena fazer.

Uma pessoa morreu, e não é possível que isso não faça diferença nos nossos corações...